QUEM ENSINA SEMPRE APRENDE |
31.12.07Publicado por GABRIEL PERISSÉ 30.12.07Filme francêsConfidências muito íntimas, de 2004, com os excelentes Sandrine Bonnaire e Fabrice Luchini. Tudo começa com um equívoco. Anna procura um terapeuta, mas se engana e bate à porta de um outro analista, um advogado tributarista. Dr. William Faber não desfaz o engano e a primeira "consulta" se realiza. Fascinado com a mulher, o "conseiller fiscal" se transforma em ouvido ideal. Ela, mesmo descobrindo o equívoco, aceita prosseguir o "tratamento". Afinal, analisar a vida humana por meio de suas declarações de renda também é um exercício psicológico... Publicado por GABRIEL PERISSÉ 29.12.07Lei Idioma LimpoEscrevi um artigo sobre a iniciativa de Aldo Rebelo contra os estrangeirismos. E há um charge em que a Mafalda concorda com o deputado. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 27.12.07Presente imaginativoPin Point é um brinquedo... não, não é bem brinquedo; um jogo... não, não propriamente um jogo; é uma espécie de exercício artístico... ou coisa que o valha. Centenas de preguinhos sem ponta geram uma superfície moldável por objetos os mais variados. No lado contrário, surge então a forma: a sua mão, um garfo, bonecos... A nossa incontrolável vontade criativa encontra espaço. Esculturas virtuais. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 26.12.07BibliotecaArrumando os livros, papéis, documentos. Para começar 2008 com as idéias claras. Cerca de 7 mil livros. Evidentemente nem tudo lido de cabo a rabo. O conteúdo também entra por osmose. Cercado pelos livros... sinto-me livre. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 25.12.07Ano que vemCombinado. No Natal do ano que vem o "amigo secreto" (em São Paulo) ou "oculto" (no Rio de Janeiro)... terá uma única regra: o presente será sempre um livro. E a turma do Google ainda não havia terminado a decoração. Agora sim: Publicado por GABRIEL PERISSÉ 24.12.07Chegaram os presentes
Publicado por GABRIEL PERISSÉ 23.12.07Mais enfeites de NatalPublicado por GABRIEL PERISSÉ 22.12.07NatalOrkut e Google se vestem de Natal. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 21.12.07Leitura de 2007Viver é ler, reler, interpretar. Viver, vir e ver no vaivém. Leitura dos últimos dias, já pensando nos primeiros dias que vêm. Os vaivéns vão que vão, vêm que vêm. Folhear e olhar. O ano que foi. E o que virá.
Publicado por GABRIEL PERISSÉ 20.12.07A dança reinventadaAssisti ontem a um vídeo inesperadamente belo. Dançarinos-atores (e um, eis a foto, que não tem pernas) revolucionando tudo. Vale a pena conhecer essa turma: DV8 Physical Theatre. Existe desde 1986. The Cost of Living. Qual será o preço, o custo, a paga? Viver e dançar. Abaixo, trechos do filme. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 18.12.07Um artigo a se divulgarO Observatório da Imprensa tem publicado artigos sobre educação e mídia que vale a pena conhecer. Um deles está aqui, da autoria de Sérgio Luiz do Prado (13/11/2007) Voz do professor raramente vem à tona "Todo mundo fala sobre educação e quem trabalha diretamente com o assunto, que é o professor, não pode falar. Isso faz parte da tentativa de fazer com que o ofício perca o seu caráter político. O professor está perdendo a voz, a autoridade", disse Mariângela Graciano, coordenadora do Observatório da Educação, em texto de Rubem Barros, do Portal Revista da Educação, em 10/09/2007. Profissionais em educação, quando não incorrem no grave erro de permanecerem silentes, são postos silentes por jornalistas, pauteiros, administradores públicos, comentaristas "pensadores" (entre aspas porque são reconhecidos como tais), empresários, artistas, jogadores de futebol... Como todos eles, dando seus palpites sobre educação, especialmente a pública. E raríssimos – para não dizer nenhum – têm conhecimento suficiente para isso. Portanto, independente da causa, o fenômeno retratado na frase de Mariângela (professores perdendo voz e autoridade) reflete-se na real e enorme parcela de culpa dos professores para a baixa qualidade do ensino público no Brasil: o silêncio espontâneo ou imposto e aceito. Para discutir os problemas da educação pública, incluindo suas causas, aqueles que os vivem cotidianamente precisam ser ouvidos. É condição para a busca de alguma solução. Mas por conta da forma como o tema é debatido, independentemente da abordagem, as (poucas) teses unânimes entre os professores nunca vêm à tona ou são consideradas superficialmente, de maneira tal que sociedade e consumidores de informação não podem visualizar a verdade. É comum que matérias, textos, ensaios, entrevistas e reportagens especiais sobre educação se baseiem em dados estatísticos ou em índices econômico-financeiros, infalivelmente margeando questões funcionais e salariais, sempre criticando a categoria. Vivemos, no que concerne ao debate sobre o tema, não meramente a era estatística e economicista da educação, mas também a era da crueldade e de uma desesperada busca por culpados. Diante da tempestade, quais questões estão ausentes no debate sobre educação pública? O pequeno investimento do Estado na educação é tão evidente quanto trágico, mas não é o único problema (em algumas das redes públicas de ensino, talvez não seja nem o maior deles). A questão reside também em como e para quê são utilizados os recursos. Quando parte do orçamento de uma gestão, independente da esfera de governo, é usado na contratação de consultorias, auditorias, ONGs e OSs que pouco podem contribuir com os reais objetivos da educação e que mais servem para contentar "compadres", amigos, aliados e financiadores com contratos públicos (e é neste nicho que se explica a Prova Brasil, SARESP e Prova São Paulo, por exemplo, além de outros incontáveis projetos federais, estaduais e municipais) ou em processos de terceirização de serviços que são absolutamente cruéis e dicotômicos – o objetivo imanente de qualquer empresa privada é o lucro, não o serviço ao público – ou em abomináveis programas assistencialistas que, como no ditado popular, "colocam o carro na frente dos bois" e são usadas eleitoreiramente (usar o termo "eleitoralmente" transmitiria uma impressão nobre demais para o caso) ou quando se estende a abrangência de programas que beneficiam, antes do bem da educação, o caixa de muitas editoras, fica evidente que o primeiro objetivo no uso dos recursos destinados à educação não é o de implementar sua qualidade, mas sim de usá-la como ótima ferramenta para bizarros interesses. Não bastasse isso, mais recursos são desperdiçados – ou distribuídos – em publicidade governamental mentirosa. A crítica não é a este ou aquele partido, à União ou qualquer unidade federativa ou qualquer município em particular: é uma prática generalizada, vil, quase criminosa; qualquer um que realmente se dedique à educação, indigna-se ao ver ou ouvir um prefeito, governador, secretário, presidente ou ministro contar meias-verdades ou absolutas mentiras. Por conta de tudo isso, a escola pública – falo, sim, sob risco de uma generalização quase injusta – perdeu seu papel. Transformou-se num centro assistencialista (usado com objetivos pérfidos), onde a população pode tudo, acumulando incontáveis direitos e para o qual não tem nenhum dever, e suas poucas obrigações, que só podem ser discutidas e cobradas no âmbito legal, são tratadas com leniência pelo Estado, que prima pelo cumprimento da Lei quando lhe é viável economicamente e mostra-se perfeito em ignorá-la quando exige o uso do erário público ou a funcionalidade de sua estrutura. E é por isso que já há anos a instituição escola pública, contrariamente ao que deveriam ser seus objetivos e em detrimento dos esforços de muitos dos profissionais que estão cotidianamente dentro dela, ensinam constantes lições de irresponsabilidade, impunidade – tão debatida e criticada em outros âmbitos –, indiferença e comodismo, não só aos seus alunos regularmente matriculados, mas muito mais a boa parte dos pais, mães e responsáveis por eles. A escola pública é, indiscutivelmente, a melhor ferramenta que o Estado brasileiro tem para se aproximar e amparar sua população. Mas, infelizmente, travestiu-se em ferramenta político-partidária usada com desfaçatez por todos os matizes da política nacional. Chegamos a uma triste definição: falar de escola pública não pode mais ser sinônimo de falar em educação pública. Não bastasse tudo isso, ou por causa de tudo isso, a sociedade brasileira, no sentido mais amplo, não tem preocupação consistente para com a educação pública (talvez tenha com a escola, por ter ela se transformado em centro assistencialista). Indistintos setores criticam a situação das escolas, as condições e a aprendizagem em geral dos alunos e principalmente os profissionais em educação, mas nenhum setor faz, pelo menos, sua parte para colaborar na recuperação da importância do saber, do conhecimento e da aprendizagem como valores. Ao contrário, instiga-se um consumismo crescente e inconseqüente, mergulhado nas supostas facilidades da suposta vida moderna: não se lê porque se pode ouvir ou ver, não se pensa porque é fácil obter idéias prontas – ainda que absolutamente equivocadas. E tudo com seu preço, consciente ou inconsciente. Nenhuma reflexão sobre as conseqüências mediatas e imediatas que têm os infindáveis e variáveis produtos ditos de informação, consumidos aos montes, diariamente, e que se revelam enorme lixo (sub)cultural. Deixar de tocar tal música por conta do que ela diz e quem ela atinge: jamais, pois é censura; não exibir o programa em virtude do risco de apologia às drogas, ao crime: antiquado; criticar a literatura de viés puramente comercial: discriminação; dispensar anunciantes por causa dos riscos apresentados pelo produto: inviável. Fiquemos com canais, programas, quadros e inserções "especiais" valorizando a tolerância, a cidadania, a língua, a ciência, a educação e o saber. Tudo feito como "detergente da consciência": "Vejam só, discutimos os problemas, temos responsabilidade social". Ora... Conveniente para a mídia audiovisual, que tem compromissos públicos legais – pouquíssimo divulgados e ainda menos cobrados –, para manter as concessões. E, além disso, tudo "escondido", perdido em horários inviáveis, não divulgados, por isso jamais atingirão o público: ele faz suas escolhas que, em 99 dentre 100 possíveis, beiram o lixo. Qual poderia ser o resultado? As trevas culturais da Idade Média estão de volta, sob nova forma. E não há perspectiva de um novo Renascimento. A humanidade, com conhecimento cada vez maior; o indivíduo, com um saber cada vez menor. Vejo-me obrigado a acreditar, tristemente, que corremos o risco de retornar ao absurdo da mais cruel das censuras, como resultado da incapacidade da ponderação e da irresponsabilidade generalizada tanto de quem produz como de quem consome a informação desinformadora, desestimulante e deseducadora. Não bastassem os problemas aqui citados e outros mais comumente debatidos, resta o que talvez seja o maior dos dramas: o academicismo inútil que permeia as práticas e políticas pedagógicas no âmbito público. Beira o misticismo, ou já se transformou em mistificação: nova visão sobre a capacidade cognitiva das crianças e adolescentes, novas formas de alfabetização e ensino, novas práticas, métodos modernos. Sou professor, mas vejo atualmente a pedagogia como uma ciência que parece desprezar completamente o empirismo: cria-se teoricamente o novo e não se observa a sua aplicação. Digo que parece desprezar porque, na verdade, não despreza, mas desvirtua o empirismo. Inúmeros autores teorizam sobre práticas educativas, baseados em experiências que jamais serão reproduzidas nas salas de aula das escolas públicas brasileiras: projetos com meia dúzia de crianças selecionadas acompanhadas por mais de um profissional em educação, dotados de todos os materiais planejados... Experimentos que se mostram um grande sucesso, mas são fantasiosos por serem evidentemente impraticáveis nas escolas de verdade, tais como elas são hoje. A superlotação é o primeiro e principal dos problemas: das redes públicas que conheço, a mais razoável em número de alunos por sala forma turmas de, no mínimo, 25 alunos no 1o ano/série – e é discutível se somente com 25 o trabalho já é tão produtivo quanto poderia ser. Outras redes públicas colocam professores em salas com 40 ou mais alunos, em espaços diminutos e precários. Além disso, em regra as práticas demandam quase que um sacerdócio – já realizado, não raramente – dos profissionais em educação: a pesquisa, a coleta e a disponibilização, por sua conta (tempo e dinheiro), de material informativo/conteudístico/sensibilizatório de qualquer natureza, para o andamento das aulas. Alunos têm os materiais básicos – quando os trazem, quando os usam; nós temos disponível, como regra, a voz, o giz e a lousa; quando muito, um livro didático – que dificilmente acompanha as mesmas práticas pedagógicas que nos são cobradas, posto que são obras prontas, remetidas para que façamos uma simples escolha – e, como regra, quase nunca atendida: não raramente, recebemos a segunda ou terceira opção apresentada. Para chegarmos ao cúmulo, adotou-se no Brasil o discurso da inclusão. E aqui não vai um questionamento quanto à validade ou necessidade de se adotar a prática inclusiva de crianças e adolescentes portadores de necessidades especiais. Mas a questão reside no fato de que ela simplesmente não ocorre. Alunos com limitações físicas ou de aprendizagem são submetidos a salas superlotadas, atendidas por um único e sobrecarregado profissional, sem receber a atenção, os esforços e os cuidados convenientes, e sua presença na escola torna-se pouco significativa para ele mesmo. Além disso, os colegas também sofrem as conseqüências de aulas seriamente prejudicadas pela presença de um aluno como esse. A inclusão mostra-se, portanto, a mais excludente das práticas: prejudica severamente os alunos para incluir e os demais da sala, tornando o processo educativo um fracasso continuado. E os professores dedicados, responsáveis – que não são poucos, nem a minoria – são comumente jogados na vala comum dos maus profissionais: taxados de incompetentes, mal formados, preguiçosos. Isso já é há tempos tema freqüente de matérias jornalísticas, e de certos dementes (adjetivo que lembra muito o nome de um renomado articulista, useiro e vezeiro em falar sobre educação, mas que provavelmente nunca pôs os pés dentro de uma escola pública nem como aluno) que vêem no professor o problema central da qualidade do ensino no Brasil. Mas para além da questão dos salários – problema muito (mal) debatido – há o grave entrave da jornada de trabalho do professor: primeiro, perpassando a própria questão dos vencimentos, já que a maioria dos professores tem mais de um emprego ou mais de um cargo para manter um nível de vida meramente nos padrões mínimos de dignidade; e o problema de como se compõem as jornadas: quando não integralmente, a esmagadora maioria do seu tempo de trabalho é gasto dentro da sala de aula. Como regra, para todas as outras atividades intrínsecas ao seu papel profissional, há que se usar o parco tempo que sobra para corrigir, checar, preparar aulas, pesquisar, atualizar-se, formar-se, capacitar-se. Só com o milagre da multiplicação do tempo ou em outro planeta, onde a duração do dia seja maior que as 24 horas terráqueas, seria possível cobrar-lhes qualidade total em suas aulas. É uma questão de visão e de opção, e a administração pública, sem ver ou fingindo que não vê, opta: quanto menos professores, melhor; quanto mais eles trabalharem – e só em sala de aula, melhor. Mantêm-se os superávits... Para os repórteres, pauteiros, colunistas, comentaristas – ou, mais genericamente, jornalistas – famosos, queridinhos da mídia e outros palpiteiros não enquadrados nas categorias anteriores, tratar da educação pública como matéria séria e como o mais sensível dos aspectos do futuro próximo perpassa pela discussão dos temas acima. Entretanto, raramente eles são abordados. Raramente são vistos. Raramente são pensados. Adota-se a discussão de outros aspectos – também problemáticos – mas discutidos, quando não de maneira hipócrita, de maneira incompleta. Qual texto jornalístico da grande imprensa não inclui, obrigatoriamente, perguntas aos secretários de educação (estaduais e municipais) ou acadêmicos? E qual deles possui um relato consistente de um professor das salas de aula? As inúmeras doenças às quais os professores estão submetidos diariamente são tratadas como "indústria das licenças"; os problemas de formação aferidos em provas mal formuladas (por distantes do que é exigido em sala de aula) e em pesquisas "sócio-econômicas" e qualitativas, plenas de perguntas capciosas, são mostrados como conseqüência da incompetência e da má-formação dos professores; professores são vistos como profissionais de "vida mansa". Como não consigo resistir, tenho que oferecer exemplo: um grande jornal brasileiro – o de maior tiragem no país – publicou recentemente, na mesma edição, uma matéria dizendo que os professores brasileiros aposentam-se mais cedo, se comparados a profissionais equivalentes de outros países do mundo, e outra afirmando que 42% dos educadores do país estão contentes com sua atividade. Apenas faltou dizer como se construíram essas conclusões, faltou informar que, no bojo da transformação das leis previdenciárias dos servidores públicos, as regras para aposentadoria são, hoje, completamente diferentes daquelas com as quais profissionais em educação já se aposentaram e que serviram de base para a comparação. E, do contentamento dos professores com sua profissão, além de não determinarem qual a técnica de amostragem, faltou incluir na manchete o depoimento de uma professora que integrava a matéria, que afirmou: apesar dos baixos salários, apesar das más condições de trabalho, apesar das frustrações, professores não deviam deixar de gostar de sua profissão. Talvez por puro sacerdócio. Especialmente nos últimos anos, desabrochou a preocupação hipócrita e a discussão inconseqüente sobre educação. Alguns expoentes da mídia escrita aventuram-se, freqüentemente, a dar seus "pitacos" na educação e tirar conclusões parciais que ou são pouco inteligentes ou, pior ainda, comprometidas com interesses escusos – e, mais uma vez, o alvo são os professores. Falta encontrar o caminho correto, tanto nas discussões como na prática político-social no que tange à educação. Atirar aos ombros dos professores a culpa pelo fracasso do sistema público de educação é simplório e, além de tudo, contraproducente. Achatar seus salários, piorar cada vez mais suas condições de trabalhos, cobrar-lhes cruelmente, e exclusivamente, por uma tarefa que é eminentemente social não resolverá os problemas. Ouvi-los, talvez seja um caminho melhor. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 15.12.07Nossa escolaConsultar as estatísticas sobre a educação brasileira é apenas um dos caminhos para entendê-la. Ajuda... um pouco. Bom mesmo é ver a realidade, pessoalmente ou por meio de trabalhos como o documentário "Pro dia nascer feliz", em que os contrastes, os paradoxos, as desesperanças e possibilidades estão ali, ou aqui, em Pernambuco ou na periferia do Rio de Janeiro, no interior de São Paulo ou num colégio de classe média alta. Reproduzo um artigo sobre o documentário, Brasil, o país do futuro?, de Christian Jafas (01/02/2007): No Brasil, cerca de 16 milhões de pessoas com mais de 15 anos não são capazes de ler essas linhas e o país tem ainda 30 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, pessoas com menos de quatro anos de estudo. Os indicadores, produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Censo 2000, foram analisados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e compõe o Mapa do Analfabetismo no Brasil, lançado em 2003. O Mapa mostra que as taxas de analfabetismo estão fortemente relacionadas à renda familiar e à localização geográfica. Todos os dez municípios com melhores indicadores estão nas Regiões Sul e Sudeste, e as dez cidades com o menor número médio de séries concluídas estão nas Regiões Norte e Nordeste. O estudo aponta ainda que é possível erradicar o analfabetismo no país com projetos de qualidade e um grande esforço nacional, mas isso exigiria aproximadamente 200 mil professores de alfabetização. Hoje, o sistema educacional conta com 49 mil professores trabalhando no primeiro ciclo do ensino fundamental na modalidade de Educação de Jovens e Adultos. Pro dia nascer feliz, segundo longa-metragem do cineasta João Jardim, mergulha nesse universo complexo e pouco explorado pela cinematografia nacional. O diretor que já havia nos presenteado com o belo Janela da Alma (2002) retoma a parceria com o produtor Flávio R. Tambellini para fazer um painel da relação jovem-escola-professor. O projeto, iniciado em 2003, só foi finalizado no ano passado e agora chega às telas com a missão de trazer à tona a discussão sobre a formação escolar brasileira. Pedir que um documentário assuma obrigações que são exclusivas da esfera governamental pode parecer excessivo, não fosse o também excessivo número de 46 milhões de brasileiros que perfilam no pátio dos analfabetos. Fugindo dos números e se aproximando do dia-a-dia dos jovens, João Jardim percebeu que a equação ‘Aluno + Escola’ possui variáveis ainda desconhecidas: “A adolescência, na vida de todos nós, é um momento difícil, sofrido, prazeroso e com emoções sempre à flor da pele. Um momento em que as dificuldades de entender o mundo, e de se entender, afloram com muita intensidade e este foi o meu foco. Eu percebia no discurso de meninos e meninas de 15, 16 anos uma inquietação e um antagonismo muito grandes com relação à escola – o que, por um lado, é natural; mas por outro, reflete a realidade da educação no Brasil”. Foi com esse foco que a equipe de filmagem percorreu extremos econômicos como o rico bairro do Alto Pinheiros em São Paulo e a violenta Itaquaquecetuba, distante apenas 50Km do centro da capital paulista; e também extremos geográficos como Duque de Caxias, no Rio de Janeiro e Manari, em Pernambuco, um dos municípios mais pobres do Brasil. E foi justamente em Manari que João encontrou Valéria, 16 anos, a personagem-símbolo do filme: “Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver”. Pro dia nascer feliz está longe de usar os personagens para refletir os números frios das pesquisas. Sem entrevistar especialistas, doutores, políticos ou ONGs, o que João Jardim propõe é simplesmente ouvir os atores desse processo: alunos e professores. Durante os 88 minutos de projeção somos convidados a retornar à sala de aula e encontrar elementos que fazem parte da nossa memória: a conversa no corredor, as desilusões amorosas, a falta de professores, a turma da bagunça, as expulsões, o drama das notas vermelhas. A fotografia de Gustavo Habda merece um dez com louvor, e aqui não importa o foco preciso ou o movimento perfeito, o que impressiona é a sensibilidade para captar gestos, olhares, risos, palavras não-ditas, componentes que permeiam qualquer roda adolescente. As imagens que entrecortam as entrevistas não servem apenas para ilustrar ou dar espaço à montagem, elas revelam as diferenças gritantes que existem na nossa sociedade: as paredes descascadas e úmidas das escolas públicas não recebem as mesmas confidências que o pátio arborizado da rica instituição paulistana. Nas escolas de Manari, Caxias e Itaquaquecetuba os problemas são os mesmos: desinteresse pelo quadro-negro, violência em sala de aula, professores com medo e desestimulados. Alguns depoimentos nos dão a certeza de que o sistema está falido, e algumas perguntas ficam sem resposta: “Como tornar a escola atraente? Que futuro existe depois da formatura? A escola vai me garantir um emprego?”. As preocupações dos alunos da rede pública são substituídas pelas questões filosóficas da elite paulistana. E a montagem não precisa colocar um depoimento atrás do outro para reforçar a idéia do diferente ou para chocar o público. Keila, 16 anos, de Itaquaquecetuba, aparece nos primeiros trinta minutos: “Antes eu chegava da escola, deitava na cama e ficava o dia inteiro dormindo. Comia até deitada na cama, porque pra mim seria a solução dos meus problemas, morrer. Seria mais fácil o caminho”. Quase no fim da projeção, Thais, 15 anos, do Alto Pinheiros revela suas angústias: “Eu tenho medo de coisas complexas e grandiosas, como o medo da morte, o que acontece depois da vida, quem sou eu, o que vai acontecer comigo – coisas que você começa a pensar nessa idade e não tem resposta”. Mais triste do que as questões filosóficas de Thais é perceber que o analfabetismo dificilmente será erradicado e um documentário como Pro dia nascer feliz está longe de ser apenas ficção no Brasil. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 14.12.07Férias, tempo de estudarLer, pensar, escrever... assistir a filmes, recrear-se também, no sentido etimológico de "recriar" forças para o ano que vem. Assisti hoje a uma das adaptações de O Morro dos Ventos Uivantes, o conhecido romance de Emily Brontë. Esta adaptação é de 1992, com as atuações impecáveis de Ralph Fiennes e Juliette Binoche. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 11.12.07O professor não é coitado; coitadas, são as estatísticasNa edição 2038 da revista Veja, o economista Gustavo Ioschpe escreve artigo com intuito polêmico. O título antecipa a conclusão de Gustavo: o professor não é um coitado. A sua argumentação, baseada na "frieza dos dados", procura desmistificar esse nosso professor-herói, que heroísmos precisaria fazer se enfrentasse – Ioschpe provará que isso tudo é ilusão – graves dificuldades e problemas no seu dia-a-dia profissional. O texto merece ser lido com realismo, ou passaremos a pensar que a imprensa brasileira, nos últimos vinte anos, movida pelo mais baixo sensacionalismo, trouxe à luz algumas exceções terríveis (um ou outro caso de violência nas escolas, um ou outro caso de salas superlotadas), exceções apenas, pois a verdadeira situação educacional seria outra. Situação, de acordo com o economista, até favorável... O que realmente atrapalha, segundo o articulista, são as reivindicações do professorado. Reivindicar a recuperação da dignidade do magistério e melhores condições de trabalho, entre outras providências, seria uma desculpa para adiar a discussão que interessa: os modos concretos de elevar a qualidade da educação. Primeiro indício: o fato de muitas pessoas quererem atuar no magistério. O magistério no Brasil seria uma profissão tão ou mais almejada do que Direito, por exemplo. A última Sinopse Estatística do Ensino Superior (2005) revelava a existência de 904.000 alunos matriculados em cursos da área de educação, ou o equivalente a 20% do total de alunos do país. Área de estudo tão popular (somos hoje cerca de três milhões de professores) daria a entender que se trata de carreira promissora. (O texto continua neste link.) Publicado por GABRIEL PERISSÉ 9.12.07Pensamento em diaOs náufragos do escrever estão prontos para novas viagens... Publicado por GABRIEL PERISSÉ 8.12.07Pensamento em diaSó quem embarca na aventura do escrever... poderá naufragar! Publicado por GABRIEL PERISSÉ 7.12.07Pensamento em diaQuem não embarca na aventura do escrever... já naufragou. Publicado por GABRIEL PERISSÉ 5.12.07Foto imperdívelQuem entra em Itabuna vindo de Ilhéus pode deparar com a cena abaixo. Um restaurante bem brasileiro, com opções originais e acessíveis. Trata-se do "shopping primitivo". Um verdadeiro achado.
Publicado por GABRIEL PERISSÉ 4.12.07ItabunaNeste final de semana, com professores de Itabuna (BA) para pensar/repensar a educação, no dia-a-dia, na lida e na leitura. Problemas específicos, problemas semelhantes ao que há no restante do país. E, como sempre, a força, a vontade do professor, da professora que quer ensinar. Voltarei à cidade no ano que vem para dar continuidade ao trabalho. Tenho pensado em militância educacional. Contribuição modesta, mas é tudo o que posso fazer por ora. Publicado por GABRIEL PERISSÉ |